Do "Lebersborn" à clonagem: Um efeito irreversível sobre a estrutura

PEUSNER Irma C. W.


A posição psicanalítica implica na sua ética a conformação do relacionamento do sujeito com seu desejo. Qualquer dispositivo que promova uma política de supressão da subjetividade nos convoca em nossa ética. Foi no século do descobrimento freudiano do inconsciente que teve lugar a Shoah, a mais radical das políticas de arrasamento subjetivo, essa experiência que não cessa de interrogar os fundamentos e os limites, até então insuspeitados, da estrutura do"parlêtre". O objetivo deste trabalho é interrogar alguns aspectos do fenômeno do nazismo e seus efeitos sobre a clínica e a ciência de hoje.

Dois psicanalistas argentinos, Juan Carlos Cosaka e Perla Sneh, formulam uma interessante hipótese: "A gramática do nazismo consiste no extermínio do discurso, em um radical cancelamento do inconsciente"(1). Os desenhadores da "solução final", eufemismo do extermínio dos judeus, tinham claro o exercício do poder através da linguagem. Foram muito minuciosos no seu uso para perpetrar, de maneira encoberta, o crime. A "sprachregelung" foi sua técnica. Significa, de maneira unívoca, "a utilização do idioma aos fins do regime". (2) – "O signo é suficiente para que alguém possa apropriar-se da linguagem como de um simples instrumento" (3). Um instrumento ao serviço do regime. Uma linguagen holofrástica impossível de ser interrogada; imposta desde uma posição de poder inquestionável Uma linguagem na qual, pela ordem do führer, não rege a lógica do significante. Trata-se de um conjunto de signos equivalentes que náo engendram metáfora nem utilizam a metonímia. Que esmagam a polissemia da linguagem . Não existe sujeito da enunciação. Somente enunciados imperativos que são cumpridos sem interrogação possível. Nenhum intervalo pelo qual possa reptar o desejo, embora numerosos testemunhos demonstram sua indestrutível insistência. Uma série de técnicas lingüísticas de afastamento do sujeito em relação com seu ato formavam parte da "sprachregelung". Utilizavam eufemismos e termos importados da bacteriologia médica para designar às vítimas. No ponto onde os sujeitos selecionados para o extermínio eram "agentes infecciosos" que contaminavam a pureza da raça, deviam ser "exterminados". O critério de seleção era biológico e baseava-se em fundamentos hipoteticamente "científicos". De que ciência se trata?. O racismo estabelece como uma resposta que é sustentada "a priori" como uma verdade "do sangue" inquestionável. Não existe pergunta. As teorias raciais desconhecem ao sujeito do significante substituindo-o por uma hipotética genealogia sanguínea que a ciência, como discurso científico, também não afirma. O discurso científico, nos diz Lacan, tem quase "a mesma estrutura que o discurso histérico; portanto, toma seus impulsos dele" (4.5.). Este discurso é emitido, é ordenado a partir do sujeito dividido pela linguagem. Tem a estrutura de uma pergunta e, portanto, não se sabe "a priori" a resposta. O saber científico, como o saber do inconsciente, é também produto do discurso e, no lugar da verdade, sempre fica um resto que relança outra vez novas perguntas.

Pelo contrário, "apenas uma coisinha que gira e no seu discurso do amo se apresenta tudo aquilo que existe para ser transformado no discurso capitalista" (6). Aqui, um significante não representa um sujeito para outro significante mas que se apresenta como um significante amo que não faz cadeia e que está localizado no lugar da verdade como inobjetável. Da união deste discurso capitalista com a ciência, nascerão as chamadas tecno-ciências, cujo ideal é dar conta do real sem resto. Um resultado direto deste dispositivo tecno-científico é o atual sistema de classificação numérica das doenças mentais, o DSM IV cuja fundamentação é tecnológica e não científica.

Lembramos agora que, para o nazismo, a fundamentação "científica" da diferença entre raças é uma certeza que não admite nenhuma interrogação, inaugurando este particular modo de utilização da ciência acoplada com o discurso capitalista. Sobre este dipositivo foi possível montar o maquinário do extermínio. Era preciso purificar a raça e, para isso, por um lado fazia falta exterminar às raças inferiores, judeus e ciganos e, por outro lado, seu reverso, promover a procriação da raça superior ariana. É assim que vai ser desenhado esse estranho experimento que foi o "Lebensborn": Fonte de vida. O objetivo deste experimento era o controle social da cria humana para melhorar o plasma germinal da raça. Para isto foram selecionados as mulheres e os homens "racialmente puros" para ser reproduzidos em segredo e depois entregar a criança aos SS que se ocupariam de sua educação. (2). Um intento de clonagem falida, já que ainda náo se tinha desenhado a técnica para eludir a reprodução sexual. Na sua acepção mais ampla, a sexualidade biológica é mistura, intercâmbio de genes e produção de diferenças inesperadas a respeito dos progenitores (7). Este real retornava uma e outra vez nestas crianças que nasciam diferentes com o previsto em funçáo do "pedigree" de seus pais. Os "diferentes" de acordo com o resultado esperado eram "descartados" e "as vezes eram enviados aos campos de extermíno para morrer como os judeus ou os ciganos (2).

No ano 2000, depois de analisar o borrador da seqüência completa do genoma humano, os científicos chegaram à conclusão que apenas existe uma raça: a raça humana. Desde o ponto de vista dos genes, a definição de raça não tem significado biológico. : "o conceito de raça não é um conceito científico". Estas são as últimas notícias sobre os fundamentos "científicos" das teorias raciais.

Alguns médicos nazistas que tinham exprimentado com seres humanos foram julgados em Nuremberg. A partir desse momento, foi colocado um limite legal para a experimentação humana através de um código que regulamentasse esta prática. Nestes tempos de clonagem, lembremos a um deles que escapou ao juízo e que tinha particular afeição por experimentar com gémeos (clones que se produzem espontaneamente).

A experimentação humana não foi proibida, mas legalizada. Uma das cláusulas do Código de Nuremberg estabelece que deve existir um consentimento informado daquelas pessoas que são submetidas à experimentação. Recentemente foi autorizada a experimentação com células de embriões humanos nas quais poderá ser realizada a clonagem para o transplante dos órgãos. Deverão ser utilizados aqueles embriões "descartados" nas técnicas de fertilização assistida (8). Pelo momento, apenas se trata da clonagem de células. Não deixa de ser perturbador, no entanto, que alguma coisa seja desligada e que os "embriões" pudessem ter outros destinos. Para ser fiel à notícia, vejo-me obrigada pelo dispositivo a denominá-los "embriões". O que ali se encontra sufocado é que se trata de um par de pais que desejou um filho e, por este motivo, foi submetido a uma técnica de fertilização assistida.

O arrasamento subjetivo realizado pelo nazismo não cessa de interrogar-nos. A nossa posição ética é intentar ler seus efeitos na clínica de hoje e escutar o sujeito do desejo, ainda no lugar onde intenta ser sufocado.

Irma C.W. Peusner

Referências

1) Sneh, Perla; Cosaka, Juan Carlos: "La Shoah en el siglo" del lenguaje del exterminio al exterminio del discurso. Xavier Bóveda ediciones. (Buenos Aires, 1999)

2) Epstein, E.J. and Rosen, P. :"Dictionary of the Holocaust". Greenwood Press (London 1997)

3) Lacan, Jacques: (1969-1970) – "Le Seminaire de Jacques Lacan. Livre XVII: L’envers de la psychoanalyse" - Editions du Seuil (Paris 1975)

4) Lacan, Jacques: (1970) Radiofonía" – Editorial Anagrama (Barcelona 1977)

5) Lacan, Jacques: (1974) "Televisión" – Editorial Anagrama (Barcelona 1977)

6) Lacan, Jacques: (1971) "De un discurso que no sería de apariencia" – Seminario 18, Versión inédita.

7) Peusner, Irma C.W.: "La paradoja de la inmortalidad". Trabajo presentado en la Reunión Fundacional para una Convergencia Lacaniana de Psicoanálisis (Barcelona 1998). Se puede consultar en http://efba.or/efba.htm el item; "Los miembros de la EFBA y sus textos". Texto de Irma Peusner.

8) Nature 406, 815. News. 24 august 2000. Macmillan Publishers England.

Este trabalho individual tem relacionamento com o cartaz de investigação:" Shoah: Estrutura e Memória"

Irma C.W. de Peusner. Psicanalista membro da Escola Freudiana de Buenos Aires e Ph.D. em Ciências Biológicas na Universidade de Buenos Aires.

e-mail: maromag@fibertel.com.ar

Traducción del español: Oscar Molina.