HOUVE AVANÇOS LACANIANOS DO INCONSCIENTE FREUDIANO? DANTAS COELHO Maria Thereza Avila Ao longo da obra freudiana, o inconsciente foi considerado uma estrutura dotada de elementos e de leis próprias de funcionamento. A preocupação de Freud, contudo, não se restringiu a explicitar esses elementos e leis. A origem do inconsciente lhe colocava um enigma. Atualizado com as novas descobertas da biologia e da antropologia, Freud(1) criou o mito do parricídio primevo e postulou a existência de uma estrutura matriz, original e universal, a ser sempre reeditada. A preocupação com a origem, bem o sabemos, é uma das marcas do estruturalismo ontológico. Quanto a esse aspecto, Freud pode ser considerado um dos precursores desse estruturalismo que tem Lévi-Strauss como um de seus expoentes. De acordo com Lévi-Strauss(2) , toda mensagem é interpretável com base num código, transformável noutro, e todos os códigos fazem referência a um Ur-código, uma Estrutura das estruturas, que se identifica com o inconsciente. Os fenômenos fundamentais e determinantes da vida do espírito localizam-se, assim, no plano do pensamento inconsciente. Essa idéia do inconsciente como estrutura foi afirmada por Lacan em sua máxima de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem(3) . A linguagem pela qual o inconsciente se afirma é o discurso do Outro que, como cadeia significante, se exprime por presenças e ausências e fala por uma sucessão de metáforas e metonímias(4) . Como metáfora, o sintoma substitui um símbolo por outro e torna obscura a sua remoção. Como metonímia, o desejo se dirige para um objeto substitutivo, tornando indecifrável o fim último de nossas aspirações. Esse desenvolvimento de Lacan mantém ainda uma continuidade com o inconsciente freudiano, de modo que, nessa perspectiva, podemos afirmar que ele é simultaneamente lacaniano e freudiano. Mas o que dizer da sua outra proposição segundo a qual o inconsciente é o Real (5)? Seguindo nessa direção, Lacan afirmou que a cadeia significante nasce da falta de algo que é inatingível. É porque existe já uma Ausência constitutiva que a cadeia significante assume os modos da oposição e diferença. As suas proposições segundo as quais 'o drama do sujeito é sua falta-ao-ser' e 'o amor faz seu objeto do que falta no real' são expressões dessa idéia(6) . Se antes a Estrutura era uma Presença que se estendia ao longo do tempo sem mudar, agora a Origem é uma Ausência que nada tem a ver com o tempo ou a história. Enquanto que para Lévi-Strauss o Ur-código é uma Estrutura que determina as demais, para Lacan ele é um manancial indeterminado que permite todas as configurações possíveis, até mesmo as que se contradizem entre si (7). Ao fazer da estrutura uma Ausência, Lacan parece explodir com o estruturalismo ontológico e gerar uma ontologia sem estruturas de qualquer tipo. Assim, toda estrutura remonta a outra e assim sucessivamente até desembocar na Ausência não estruturada. Nesse desenvolvimento de Lacan, a influência filosófica maior parece ter sido a de Heidegger. Para Heidegger, o valor de um pensamento não reside no que ele diz, mas no que deixa de dizer(8) . Cadeias significantes e estruturas são manifestações do Ser, fazem o Ser falar, sem exauri-lo no que diz. O Ser não se reduz ao dito. O Ser é pura diferença. Ele não é submetido a nenhuma determinação estrutural. Sabemos que Freud, desde o início de sua obra, marcou a presença de uma Ausência irredutível à linguagem e ao saber. O umbigo dos sonhos(9) e a inacessibilidade do recalcado originário(10) são expressões dessa Ausência. Nessa perspectiva, a concepção lacaniana do inconsciente como o Real seria ainda freudiana, ainda que transvestida numa nova linguagem conceitual. Lacan atualizou a teoria psicanalítica dialogando com os saberes de seu tempo. Ele transmitiu a psicanálise com novas palavras, introduzindo novos conceitos. Mas essas novas palavras e esses novos conceitos produziram novas idéias sobre o inconsciente? A questão que eu gostaria de lançar para discussão, então, é a seguinte: houve realmente avanços lacanianos do inconsciente freudiano?
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